A primeira impressão de Re:Zero pode ser bastante enganosa.
Temos um jovem transportado para outro mundo, magia, garotas bonitas, criaturas fantásticas e até uma habilidade especial exclusiva do protagonista.
Parece a receita perfeita para mais um isekai de poder.
Só existe um pequeno problema:
Subaru é fraco.
E considero essa uma das decisões mais importantes de Re:Zero.
O Retorno pela Morte parece inicialmente uma habilidade absurdamente poderosa. Afinal, Subaru pode morrer, voltar no tempo sabendo o que aconteceu e tentar novamente.
Na prática, é quase o contrário.
O mundo esquece.
Subaru não.
Ele lembra da dor. Lembra do medo. Lembra de morrer. Lembra de ver pessoas que ama morrerem na sua frente.
E então retorna para conversar normalmente com pessoas que não fazem ideia do que acabou de acontecer.
Re:Zero transforma aquilo que poderia ser um "save point" extremamente conveniente em uma das habilidades mais cruéis que um protagonista de isekai poderia receber.
O verdadeiro poder de Subaru é a informação
Subaru não é o personagem mais forte daquele mundo.
Nem perto disso.
Em várias situações, praticamente qualquer personagem relevante ao redor dele seria capaz de derrotá-lo facilmente.
Isso obriga Re:Zero a encontrar outra maneira de fazer seu protagonista importante.
Informação.
Cada morte ensina alguma coisa.
Quem atacou?
Quando aconteceu?
Por quê?
Em quem ele pode confiar?
O que precisa mudar?
A estrutura de Re:Zero frequentemente transforma seus arcos em uma espécie de quebra-cabeça no qual Subaru precisa descobrir as regras antes de conseguir encontrar uma solução.
E gosto muito disso porque cada nova tentativa muda nossa percepção sobre aquilo que vimos anteriormente.
Uma conversa aparentemente irrelevante pode esconder uma pista.
Uma pessoa que parecia inimiga pode não ser.
Uma decisão aparentemente correta pode iniciar uma sequência completamente diferente de acontecimentos.
O Retorno pela Morte não elimina as consequências.
Ele permite que Subaru descubra quais são elas.
Subaru pode ser insuportável — e precisa ser
Provavelmente uma das maiores barreiras para quem começa Re:Zero é o próprio Subaru.
Ele é exagerado.
Arrogante.
Impulsivo.
Constrangedor.
Em alguns momentos, chega a ser difícil assistir ao personagem tomando determinadas decisões.
Mas existe algo que considero muito interessante nisso:
Re:Zero sabe que Subaru é assim.
A história não trata sua arrogância como uma característica incrível de protagonista.
Quando Subaru começa a acreditar que é o herói daquela história e que Emilia deveria reconhecer tudo que ele fez por ela, a série permite que ele fracasse de maneira espetacular.
E isso é necessário.
Subaru chegou naquele mundo carregando uma visão quase fantasiosa sobre quem deveria ser naquele tipo de história.
Só que Re:Zero não entrega essa fantasia para ele.
Ele precisa entender que ajudar alguém não transforma essa pessoa em sua dívida.
Precisa aprender a pedir ajuda.
Precisa reconhecer suas limitações.
E, talvez mais importante, precisa perceber que sua própria vida também possui valor.
Por isso não considero Subaru um protagonista interessante apesar de seus defeitos.
Ele é interessante por causa deles.
Morrer não significa perder
Existe uma inversão muito interessante em Re:Zero.
Normalmente, em uma história, sabemos que algo deu errado quando o protagonista morre.
Aqui, às vezes a morte acontece muito antes do verdadeiro fracasso.
Subaru pode descobrir que determinada pessoa morreu.
Pode perceber que tomou uma decisão errada.
Pode encontrar uma situação aparentemente impossível de resolver.
E continuar vivo.
Nesse momento surge uma pergunta terrível:
vale a pena morrer para tentar novamente?
É aí que o Retorno pela Morte deixa definitivamente de parecer uma habilidade conveniente.
Subaru não aperta simplesmente um botão de reset.
Ele precisa morrer.
E morrer dói.
Quanto mais a história avança, mais importante fica entender que o objetivo não deveria ser simplesmente encontrar a "rota perfeita".
Subaru também precisa sobreviver a ela.
Os personagens existem além de Subaru
Outro grande mérito de Re:Zero está em seu elenco.
Rem talvez seja o exemplo mais conhecido, mas está longe de ser o único.
Emilia, Beatrice, Ram, Otto, Garfiel, Roswaal, Echidna e vários outros personagens possuem motivações, traumas e interesses próprios.
Isso funciona especialmente bem por causa da estrutura de repetição.
Em uma linha temporal, Subaru pode conhecer apenas uma pequena parte de determinado personagem.
Depois ele retorna.
Toma decisões diferentes.
Conversa com aquela pessoa em outro contexto.
E nós descobrimos algo completamente novo sobre ela.
Re:Zero usa seus loops não apenas para resolver problemas, mas também para revelar personagens.
Talvez por isso algumas relações funcionem tão bem.
Nós lembramos de coisas que os personagens esqueceram.
Subaru pode carregar uma relação inteira com alguém que, naquela linha temporal, nunca viveu aqueles momentos.
Existe algo bastante melancólico nisso.
Emilia e Rem não deveriam ser reduzidas a uma disputa
É praticamente impossível falar de Re:Zero sem esbarrar na eterna discussão entre Emilia e Rem.
Mas acho que reduzir as duas a "quem deveria ficar com Subaru?" desperdiça justamente aquilo que elas têm de mais interessante.
Rem protagoniza alguns dos momentos emocionalmente mais importantes da transformação de Subaru.
Emilia, por outro lado, não deveria existir simplesmente como recompensa final pela perseverança dele.
Ela possui seus próprios medos, objetivos, inseguranças e responsabilidades.
Quando Re:Zero funciona melhor, essas personagens não orbitam Subaru.
Elas caminham ao lado dele.
E às vezes são justamente elas que precisam puxá-lo de volta.
O mundo começa pequeno e continua crescendo
Re:Zero também faz algo que gosto bastante em histórias longas.
Ele não tenta explicar tudo imediatamente.
Começamos conhecendo uma cidade.
Depois uma mansão.
Então surgem a Seleção Real, outras candidatas, cavaleiros, a Seita da Bruxa, Arcebispos do Pecado, bruxas, espíritos, outros territórios e conflitos políticos.
O mundo vai ficando maior conforme Subaru precisa conhecê-lo.
Isso também cria uma sensação constante de que existem coisas muito acima da capacidade dele.
Há personagens absurdamente poderosos naquele universo.
E Subaru continua sendo Subaru.
Sua maior vantagem permanece sendo aquilo que ninguém mais possui:
a possibilidade terrível de descobrir o que acontece quando tudo dá errado.
Re:Zero não é sobre morrer
Curiosamente, depois de tantas mortes, considero que Re:Zero fala muito mais sobre viver.
O Retorno pela Morte cria uma tentação perigosa.
Se Subaru pode retornar, então sua vida poderia ser tratada simplesmente como mais um recurso.
Errou?
Morre e tenta novamente.
Só que existe uma pessoa que precisa experimentar cada uma dessas mortes.
Ele.
E quanto mais Subaru passa a valorizar as pessoas daquele mundo, mais precisa aprender algo muito mais difícil:
incluir a si mesmo entre as pessoas que deseja salvar.
Essa é provavelmente uma das ideias que mais gosto em Re:Zero.
Persistir não significa simplesmente suportar sofrimento infinitamente.
Às vezes significa reconhecer que você não consegue resolver tudo sozinho.
Então Re:Zero é um dos melhores isekais?
Para mim, sim.
Mas não porque tenha inventado o protagonista transportado para outro mundo ou o conceito de retornar no tempo.
É a maneira como utiliza essas ideias que faz diferença.
Re:Zero pega uma habilidade que facilmente poderia transformar Subaru em alguém invencível e a transforma em fonte de vulnerabilidade.
Pega um protagonista que inicialmente acredita estar entrando em sua própria aventura fantástica e mostra que aquele mundo nunca existiu para satisfazê-lo.
E transforma derrotas em parte essencial da narrativa.
Subaru perde.
Quebra.
Desiste.
Toma decisões terríveis.
Às vezes precisa que outra pessoa o coloque novamente de pé.
Então tenta outra vez.
Talvez seja justamente por isso que suas vitórias funcionem tão bem.
Porque quando Subaru finalmente encontra uma saída, nós sabemos exatamente quantas vezes vimos aquele caminho terminar em desastre.
Em Re:Zero, morrer é fácil. Difícil é continuar escolhendo viver.
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