KonoSuba não perde muito tempo para mostrar que tipo de história pretende ser.
Kazuma morre.
Recebe a oportunidade de ir para outro mundo.
Pode escolher uma habilidade especial, uma arma lendária ou praticamente qualquer vantagem capaz de transformar sua nova vida em uma fantasia de poder.
E o que ele escolhe?
Levar a própria deusa Aqua junto só para se vingar dela.
Pronto.
Talvez não exista maneira melhor de explicar o que KonoSuba pretende fazer.
O protagonista recebe uma oportunidade que praticamente qualquer herói de isekai aproveitaria para se tornar extraordinário.
Kazuma usa para cometer uma pequena vingança.
E imediatamente precisa conviver com as consequências.
Kazuma talvez seja humano demais para ser um herói
Quanto mais perfeito um protagonista se torna dentro de um isekai, mais tenho a sensação de que ele começa a pertencer àquele novo mundo.
O conhecimento da vida anterior vai ficando para trás.
Seus valores se adaptam.
Suas habilidades crescem.
Ele aceita seu papel.
Em algum momento, aquele sujeito que veio do nosso mundo parece ter desaparecido e dado lugar ao herói daquele universo.
Kazuma segue por outro caminho.
Ele continua mesquinho.
Preguiçoso.
Oportunista.
Pervertido.
Às vezes egoísta.
E capaz de guardar rancor por coisas absolutamente insignificantes.
Isso não significa que seja incompetente.
Muito pelo contrário.
Quando realmente precisa resolver alguma coisa, Kazuma consegue ser surpreendentemente inteligente.
O problema é que competência não transforma automaticamente alguém em uma pessoa melhor.
E talvez seja justamente isso que faça Kazuma parecer tão humano.
Ser transportado para outro mundo não corrigiu seus defeitos.
Não instalou um senso heroico de justiça.
Não fez com que ele acordasse querendo salvar desconhecidos.
Kazuma continua sendo Kazuma.
Só que agora precisa derrotar monstros.
Aqua é uma deusa — infelizmente isso não resolve tudo
Aqua é uma das piadas mais fáceis de KonoSuba.
"Inútil."
Só que essa definição nunca foi completamente justa.
Aqua possui poderes absurdos.
Consegue realizar coisas que poucos personagens daquele mundo seriam capazes de fazer.
O problema é que ela também é arrogante, impulsiva, emocional, irresponsável e perfeitamente capaz de transformar uma vantagem enorme em um problema ainda maior.
E existe algo curioso nisso.
Ela me lembra aquela ideia das antigas divindades gregas: seres divinos que, apesar de todo o poder, continuam apresentando emoções, vaidades e defeitos extremamente humanos.
Não estou dizendo que KonoSuba esteja tentando fazer uma releitura da mitologia grega.
A comparação funciona pelo contraste.
Aqua possui poder divino, mas não maturidade divina.
Ela chora.
Fica com raiva.
Quer reconhecimento.
Faz besteira.
Bebe demais.
Gasta dinheiro.
Arruma problemas.
E depois precisa que o grupo resolva aquilo que ela mesma ajudou a causar.
Talvez Aqua não seja inútil.
Talvez o verdadeiro problema seja entregar poderes de uma deusa para alguém com a capacidade de decisão da Aqua.
Megumin colocou todos os pontos em uma coisa só
Então temos Megumin.
Provavelmente qualquer jogador de RPG olha para a construção dela e pensa:
não faça isso.
Ela possui talento.
Possui potencial.
Poderia desenvolver diversas habilidades.
Mas decidiu que existe apenas uma magia digna de sua atenção.
Explosion.
Uma magia devastadora.
Espetacular.
Capaz de destruir praticamente qualquer coisa atingida por ela.
E que deixa Megumin completamente incapaz de continuar lutando depois de usá-la.
É uma build ridícula.
E ela sabe disso.
Esse é o detalhe que faz a piada funcionar.
Megumin não está presa a uma escolha ruim porque não entende suas limitações.
Ela escolheu suas limitações.
Alguém poderia mostrar dez caminhos mais eficientes e ela provavelmente escolheria Explosion novamente.
E continuo esperando o momento em que toda essa insistência seja recompensada da maneira mais absurda possível.
Aquela situação em que todos percebam que a garota que colocou praticamente todos os pontos em uma única magia estava, por acaso, exatamente com a habilidade necessária para salvar todo mundo.
Se acontecer, será provavelmente uma das piadas mais longas da obra.
E então temos Darkness
Aqui admito minha fraqueza.
Darkness é minha personagem favorita.
E não apenas pela piada óbvia que acompanha a personagem.
O masoquismo é parte enorme de sua comédia e KonoSuba definitivamente não demonstra vergonha alguma em explorar isso.
Às vezes até demais.
Mas existe uma personagem bastante interessante quando conseguimos olhar além dessa característica.
Darkness é forte.
Possui posição social.
Possui responsabilidades.
Tem acesso a uma vida completamente diferente daquela que leva com Kazuma, Aqua e Megumin.
E, em diferentes momentos, poderia simplesmente seguir outro caminho.
Mas continua ali.
Isso me interessa porque transforma sua permanência no grupo em uma escolha.
Darkness não está com eles simplesmente porque não possui outro lugar para ir.
Ela poderia ter outra vida.
Só que aquela coleção de pessoas problemáticas também se tornou o lugar ao qual ela pertence.
Talvez seja justamente por isso que, entre as possibilidades românticas de Kazuma, eu pessoalmente gostaria de vê-lo com Darkness.
Não porque seja necessariamente a opção mais óbvia.
Talvez justamente porque não seja.
O pior grupo possível acaba funcionando
Individualmente, existe alguma coisa errada com praticamente todos eles.
Kazuma consegue pensar, mas nem sempre quer agir.
Aqua possui habilidades incríveis, mas frequentemente toma decisões terríveis.
Megumin pode causar um dano absurdo exatamente uma vez.
Darkness consegue aguentar praticamente qualquer ataque...
desde que consiga acertar alguma coisa de volta.
Coloque essas quatro pessoas em uma sala e peça para escolherem um líder.
Provavelmente a sala pega fogo.
Mas coloque os quatro diante de um problema que realmente precisam resolver e algo estranho acontece.
Eles funcionam.
Não porque tenham superado seus defeitos.
Eles aprendem a compensá-los.
Isso me lembra bastante aqueles grupos improvisados em jogos online.
Nem sempre você confia completamente no que o outro vai fazer.
Às vezes alguém toma uma decisão completamente errada.
Mas todo mundo quer ganhar.
Então, quando um faz besteira, outro tenta compensar.
Quando Aqua cria um problema, Kazuma precisa pensar.
Quando precisam de poder destrutivo, Megumin está ali.
Quando alguém precisa receber um ataque que destruiria qualquer pessoa normal...
Bem.
Darkness provavelmente está feliz demais com a situação.
A confiança do grupo não está em acreditar que ninguém vai errar.
Está quase em saber como cada um provavelmente vai errar.
E conseguir jogar ao redor disso.
Um bom plano nas mãos das piores pessoas possíveis
Essa talvez seja uma das minhas dinâmicas favoritas da comédia de KonoSuba.
Kazuma frequentemente consegue elaborar planos realmente bons.
Ele analisa a situação.
Entende as habilidades disponíveis.
Encontra alguma solução improvável.
Existe apenas uma variável impossível de controlar:
sua equipe.
Planejar uma estratégia sabendo que Aqua, Megumin e Darkness serão responsáveis por executá-la transforma qualquer situação em uma ameaça.
Às vezes o plano funciona exatamente como deveria.
Às vezes funciona por motivos completamente diferentes.
E às vezes tudo dá errado até alguém transformar o próprio erro na solução.
KonoSuba entende que não basta ter personagens engraçados.
É preciso colocá-los em situações nas quais seus defeitos possam colidir.
A comédia nasce muito dessa reação em cadeia.
KonoSuba funcionaria mesmo sem ser isekai
Isso talvez pareça uma crítica.
Não considero que seja.
Boa parte do humor de KonoSuba funcionaria mesmo se retirássemos o elemento de outro mundo.
Esses quatro personagens poderiam estar em uma fantasia convencional, em um RPG ou provavelmente administrando uma lanchonete e ainda encontrariam alguma maneira de transformar tudo em desastre.
Isso acontece porque o principal motor da comédia não é simplesmente satirizar clichês de isekai.
São os personagens.
Claro que o gênero é aproveitado.
Classes.
Guildas.
Quests.
Habilidades.
Reencarnação.
Deuses.
Rei Demônio.
Tudo isso fornece material para a obra brincar com nossas expectativas.
Mas KonoSuba não depende exclusivamente de reconhecermos a referência para funcionar.
Mesmo alguém que nunca assistiu a outro isekai consegue entender algo bastante simples:
essas quatro pessoas não deveriam estar trabalhando juntas.
E isso já é engraçado por si só.
Evoluir não significa virar outra pessoa
Também gosto do fato de KonoSuba permitir que seus personagens evoluam sem necessariamente "consertá-los".
Existe uma ideia muito comum em histórias de que desenvolvimento significa abandonar defeitos.
Nem sempre.
Pessoas envelhecem sem mudar determinadas características.
Pessoas ruins também envelhecem.
Pessoas problemáticas podem amadurecer e continuar problemáticas.
Kazuma pode aprender alguma coisa hoje e continuar sendo mesquinho amanhã.
Aqua pode salvar todo mundo em determinado momento e criar o próximo desastre pouco depois.
Megumin pode entender perfeitamente as limitações de Explosion e continuar escolhendo Explosion.
Darkness...
Darkness provavelmente não quer ser curada de absolutamente nada.
E tudo bem.
A evolução deles aparece em outros lugares.
Principalmente na maneira como passam a funcionar juntos.
Quando a piada para por alguns minutos
KonoSuba também sabe que comédia constante pode perder força.
Por isso gosto quando a obra ocasionalmente muda de tom.
Uma batalha fica realmente séria.
Um personagem demonstra alguma vulnerabilidade.
Uma relação avança.
Existe perigo verdadeiro.
E justamente porque passamos tanto tempo vendo essas pessoas discutindo por bobagens, esses momentos conseguem surpreender.
A mudança não precisa durar muito.
KonoSuba não precisa virar um drama sombrio para provar que seus personagens possuem profundidade.
Às vezes alguns minutos são suficientes.
Depois alguém pode explodir alguma coisa e voltamos ao normal.
Talvez o romance seja uma das poucas coisas que realmente precise avançar
Isso fica especialmente interessante quando começamos a falar dos sentimentos entre os personagens.
KonoSuba consegue manter muita coisa praticamente no mesmo estado por bastante tempo.
As personalidades continuam reconhecíveis.
As piadas retornam.
Os defeitos permanecem.
Mas sentimentos são um pouco mais difíceis de manter completamente parados.
Principalmente porque Kazuma é ótimo para falar besteira e nem sempre tão bom quando precisa entender o que realmente sente.
É curioso assistir personagens acostumados a lidar com monstros, magia e situações completamente absurdas tentando compreender algo muito mais simples:
eu realmente gosto dessa pessoa?
Nesse ponto, a comédia não impede a progressão.
Na verdade, torna tudo ainda mais estranho.
E talvez seja justamente uma das áreas em que KonoSuba consegue fazer seus personagens avançarem sem precisar transformá-los em versões completamente diferentes de quem sempre foram.
Nem todo mundo precisa virar herói
No fundo, acho que essa é uma das coisas que mais gosto em KonoSuba.
Kazuma não precisa virar o herói perfeito.
Aqua não precisa virar a deusa perfeita.
Megumin não precisa distribuir seus pontos de habilidade corretamente.
Darkness definitivamente não precisa começar a tomar decisões sensatas.
Eles precisam funcionar.
Só isso.
E de alguma maneira conseguem.
Talvez seja por isso que o grupo seja tão divertido de acompanhar.
Não estamos esperando que essas pessoas finalmente deixem de ser desajustadas.
Estamos esperando para descobrir como quatro desajustados vão resolver o próximo problema.
Às vezes através de inteligência.
Às vezes através de força.
Às vezes através de Explosion.
E algumas vezes provavelmente porque Aqua fez alguma coisa tão errada que deu a volta completa e acabou funcionando.
Então KonoSuba é apenas uma boa comédia?
Não acho.
É uma ótima comédia.
Mas existe uma diferença.
KonoSuba poderia simplesmente acumular piadas sobre RPG e isekai.
Provavelmente ainda seria divertido.
O que faz a obra durar é que começamos a gostar daquele grupo.
Não apesar dos defeitos.
Por causa deles.
Eles brigam.
Se provocam.
Estragam os planos uns dos outros.
Criam dívidas.
Tomam decisões ruins.
E continuam juntos.
Talvez essa seja a parte mais humana de KonoSuba.
Você não precisa reunir quatro pessoas perfeitas para formar um bom grupo.
Às vezes basta encontrar pessoas cujos problemas sejam estranhamente compatíveis com os seus.
E se você ainda estiver em dúvida se deveria assistir, volto ao começo:
um sujeito morreu, recebeu a oportunidade de escolher qualquer vantagem para sua nova vida e decidiu levar a própria deusa junto só para se vingar dela.
Se isso parece o tipo de parquinho pegando fogo que você gostaria de assistir...
assiste e depois a gente conversa.
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